Em 1696, os bandeirantes que passavam pela região em busca de ouro se surpreenderam com as terras produtivas, as variadas espécies de animais e a abundância de água. Eles decidiram cancelar a expedição e acabaram se instalando no vilarejo. Foram eles que tiveram a idéia de construir os primeiros casarões do povoado.
A arquitetura resistiu ao tempo. Em um casarão há 22 janelas, e doze quartos. Em outro funciona o escritório da fábrica mais antiga de Alvinópolis, que fica logo em frente. Cada vez que volta a este lugar Dona Maria Elisa resgata as lembranças. Foi aqui que ela passou boa parte da vida. Os casarões pertenceram primeiro ao avô dela e depois ao pai.
- A infância foi toda aqui. Quando eu estava com dez anos fomos para Belo Horizonte e vinha nas férias, então era a paixão da gente. Chegava e ficava nas árvores, nas matas brincava. Domingo a fábrica não funcionava então a gente ia para brincar dentro da fábrica escondido, mas chegava todo mundo coberto de pelinho então eles já sabiam que a gente estava lá, lembrou a aposentada Dona Elisa.
A indústria de tecidos existe há 117 anos e foi ao redor dela que a cidade se formou. Em 1939, um incêndio acabou com tudo. O pai de Dona Maria Elisa fez a reconstrução, comprou teares da Europa que por pouco não chegaram ao Brasil.
- Eles compraram na Alemanha os teares, então, estourou a guerra. Mas a sorte é que o ultimo navio que passou pelo bloqueio era este que estava trazendo os teares, afirmou a aposentada.
A produção voltou a toda prova. Na fábrica, é feito todo o processo: desde a fiação até a estampa dos tecidos, a maioria chitão.
- A chita é bonita, é viva, é forte, é vibrante e é alegre como o brasileiro, enfatizou a funcionária da fábrica Maria do Rosário.
Alegria Dona Judith tem de sobra. É uma das moradoras mais antigas de Alvinópolis.
- Tenho muita amizade, todo o lugar tem uma pessoa amiga. Tenho primos, amigos, ex-alunas. Dei aula 43 anos, tenho alunas de todo o lugar. As vezes quando estou na rua um bate a mão no meu ombro e pergunta: como vai dona Judith? Disse Judith Vasconcelos.
Dona Judith tem 85 anos, é solteira e vive sozinha nesta imensa casa.
- A gente tem amor ao lugar, se sair não adapta, tem que ficar onde a gente começou a vida. Tudo que acontece na igreja eu fico sabendo. Quando eu fico cansada e não agüento subir escada eu chamo um táxi, ele dá a volta comigo eu entro na igreja, assisto a missa e volto a pé, falou Judith.
A matriz de Nossa Senhora do Rosário, do século XVIII é a mais antiga da cidade, fica bem no alto, na parte histórica. O relógio inglês de 1892 ainda marca as horas. A igreja era freqüentada pelos brancos. Em frente, no outro morro, foi construída a dos negros, mas a cultura deles ficou também na pintura da matriz.
- Toda a construção da matriz foi feita no período da escravidão. As pinturas, os elementos que hoje compõem parte da pintura da igreja tiveram essa influência dos escravos, dos negros. Os negros usaram quatro elementos da sua cultura religiosa: a terra, o ar, o fogo e a água. Os elementos nós temos no altar. O vermelho que compõe o fogo, o ar são os anjos, a eternidade que também tem a ver com o ar, a terra é a natureza e também nós temos a água formada pelas nuvens de cores azul, contou o Padre Geraldo de Almeida.
Os moradores do município são muito religiosos e gostam de contar uma história sobre este antigo convento:
- Nesta casa havia um grupo de meninas, todas de um meio muito carente que foram recolhidas para ser cuidadas e educadas. Uma tarde depois do jantar elas estavam fazendo recreação, quando uma delas, chamada Maria Cornélia olhou para o céu e viu uma grande luz acima, ai chamou a atenção das coleguinhas. Depois ela disse assim: eu estou vendo no meio daquela luz uma mulher muito bonita, parece com Nossa Senhora, lembrou a Irmã Maria Helena Paiva.
E um altar foi montado em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. Alvinópolis tem uma curiosidade. O cemitério é diferente de todos do país. Ele é cercado por bambus que formam uma coroa. A idéia foi de um padre.
- Ele ia fazer o cemitério com um tapume de pedras, aí ao fazer uma visita na França, na cidade de Nice, ele viu um cemitério semelhante, na época a idéia foi acatada por todos, falou o professor Ênio Cota.
Uma idéia que veio de longe e virou curiosidade no interior de Minas. |